Ela correu, como nunca antes e, tinha certeza, como nunca depois!
Correu corrida necessária, com velocidade suficiente para que o vento lhe empurrasse os cabelos longos e maltratados!
Decidiu que hoje seria livre, mas, em cada passo que dava, vinha-lhe o peso do querer voltar atrás, o medo de não saber o que é liberdade!
"Pára de insistir! Eu não quero mais você, não te desejo e não te amo!"
Ninguém (nunca) ia saber como aquelas palavras lhe rasgaram por dentro! Cada letra lhe aparecia desenhada sempre que se lembrava daquele dia! Aquele cara... ah, ele não sabia o mal que tinha feito!
"Por que eu não sou mais quem você precisa?"
Foi a pergunta que ela fez, mas sem resposta.
Era a pergunta que lhe aprisionava: O que ela precisava para ser boa!?
Acontece que a vida a obrigou a seguir em frente, assim como fez com todos os outros. E enquanto tentava viver a sua dor, as pessoas lhe pediam para ser forte! Até que ela acreditou que esta era uma obrigação. Isso a fez superar tudo, exceto pelos momentos em que se trancava no banheiro para chorar e o dia em que desmaiou a caminho do trabalho, porque não teve vontade de comer nada durante o dia anterior! Ah... também tem aqueles dias em que ela entra no banho sem se olhar no espelho, mas isso também não vem ao caso.
Tudo permanecia muito bem, até que um dia, um amigo que não via há tempos, quando a encontrou, fez uma pergunta intrigante:
- O que fizeram com você?
- Como assim? Do que você tá falando?
- Do que eu estou falando? Existia um detalhe essencial na sua relação com as pessoas! Quando as pessoas conversavam com você, você olhava nos olhos, de maneira tão segura e atenta, a ponto de fazê-las se sentir valiosas e "em casa"! Agora, estamos conversando há 20 minutos e ainda não tive o prazer de encontrar aquele seu olhar!
O que aconteceu depois daí, ela não lembra! Só sabia que aquilo a tinha bagunçado toda por dentro. Cara, já faziam anos que aquele dia doído tinha passado! O dia em que se sentiu completamente sem valor! E como aquilo a tinha transformado? Como ela pôde deixar que uma pessoa a destruísse e construísse algo muito pior em seu lugar?
Foi então que decidiu... uma semana depois da conversa com o seu amigo... ela precisa voltar!
Então correu, como nunca antes e, tinha certeza, como nunca depois!
A cada passo que dava, lembrava do que precisava deixar pra trás! Ela começou de fora para dentro... tirou a blusa e deixou à mostra o biquíni que não usava há 3 anos! Decidiu que não se importaria em ter o corpo das outras mulheres da academia. Se sentiu diferente. Não se preocupou em tentar decifrar os olhares que lançavam sobre ela. Ela se importou em correr!
Mas esse foi só o primeiro passo efetivo, depois de tantos passos suados daquela corrida... veio então o segundo passo, descobrir que existiam feridas profundas, camufladas pela necessidade de ser forte. Pensar em tudo aquilo a deixava agitadíssima, a ponto de precisar correr mais rápido. Enquanto acelerava pensava que não ia mais aguentar... aguentou o quanto pôde, até perceber que ela era um ser humano, e não podia aguentar tudo! Ao constatar que era fraca, parou de correr, sentou-se no primeiro canteiro que encontrou e vomitou! Vomitou o que tinha no estômago, o que carregava nas costas e o que pesava na alma!
Caminhou então para o mar que tinha a frente, para se limpar... do vômito, e daquelas outras coisas. Mergulhou! Prendeu a respiração por um tempo, a fim de ficar o máximo possível debaixo daquela água gelada! Pensou em tudo o que tinha vivido em alguns minutos de corrida! Levantou e agradeceu por poder respirar. Caminhou então... se sentia muito pequena, num mundo de outros humanos muito pequenos. Mas ela estava muito feliz, porque, depois de tantos anos, descobriu um tesouro: ela tem o direito de ser fraca de vez em quando!
Depois daí, as coisas não se tornaram fáceis, a vida daquela menina não virou de cabeça pra baixo... a questão é que, ela se virou de cabeça para cima! E aí... numa luta diária por ser plena, ouvem-se alguns comentários sobre um olhar especial de uma jovem que trata com amor e que merece alguém que a trate bem.
Quando arrumou a bagunça que tinha por dentro, conseguiu arrumar as bagunças dos outros, inclusive de um rapaz que tinha uma maneira tão especial de conversar. Esse rapaz tinha umas falas muito boas que sempre geravam alguma movimentação dentro das outras pessoas. Uma vez encontrou com ele na rua... e depois de um tempo de conversa, estranhou! Ele tinha mudado tanto... Perguntou então: "O que fizeram com você?"
domingo, 22 de setembro de 2013
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